15 de setembro de 2026
Quando o tempo muda nosso lugar nas relações
Uma leitura sobre envelhecimento, vínculos, arrependimentos e a possibilidade de ainda estarmos presentes enquanto há tempo.
Vou começar pelo final e te contar que terminei este livro chorando. Muito...
Quando os pássaros voam para o sul, de Lisa Ridzén, é daqueles livros que nos fazem fechar a última página e permanecer algum tempo em silêncio.
A história é narrada por um homem idoso que vive sozinho, já necessitando de alguns cuidados, enquanto sua esposa está em uma instituição para idosos, atravessando a demência e, aos poucos, perdendo suas lembranças e o reconhecimento das pessoas que fizeram parte de sua vida.
É como se ele conversasse com ela o tempo inteiro.
E, nessas conversas, vai revisitando a própria história: a infância, a relação com o pai e com a mãe, as escolhas que fez, aquilo que viveu e também aquilo que não conseguiu viver. Ao mesmo tempo, vemos sua relação com o filho, agora adulto e diante da tarefa de cuidar dos próprios pais.
Talvez tenha sido isso que mais me atravessou no livro: a maneira como o tempo muda o lugar que ocupamos nas relações.
Um dia somos os filhos. Depois, somos os adultos ocupados tentando dar conta da própria vida. E, em algum momento, podemos nos tornar aqueles que precisam cuidar de quem um dia cuidou de nós.
E nem sempre chegamos a esse momento com relações fáceis.
Há histórias construídas na dureza, no silêncio, na dificuldade de demonstrar afeto. Há palavras que nunca foram ditas, abraços que não aconteceram, conversas adiadas e sentimentos que talvez só consigamos compreender muitos anos depois.
O livro fala de envelhecimento e de finitude, mas, para mim, fala sobretudo do amor e do tempo.
Do amor que às vezes esteve presente, mesmo quando não soubemos demonstrá-lo. Dos arrependimentos pelo que não conseguimos fazer. E da possibilidade, enquanto ainda há tempo, de olhar novamente para as nossas relações.
Talvez não seja possível mudar o que passou.
Mas, em algumas histórias, ainda é possível mudar a maneira como estaremos presentes daqui para frente.
Por isso, indicaria este livro especialmente para quem ainda tem seus pais por perto. Para quem está vivendo o envelhecimento deles, assumindo cuidados ou atravessando relações difíceis com pais idosos.
É uma leitura que pode abrir espaços dentro da gente.
Porque, no fim, quando tanta coisa perde a importância que um dia pensamos que tinha, talvez o que permaneça seja justamente isso:
como amamos e como nos permitimos ser amados.
Um livro lindo. Daqueles que apertam o coração e, ao mesmo tempo, o abrem.